terça-feira, 5 de maio de 2026

Contos de Elgalor: Mini Kang

Nas montanhas próximas à cidade estado de Amantil, encontra-se um grande e antigo monastério que é o lar do braço monástico da Ordem da Chama Azul. Esta ordem produziu muitos dos maiores e mais lendários artistas marciais de Elgalor, e um dos mais veneráveis mestres da ordem é um monge e artista marcial centenário conhecido como Mestre Kang. Conhecido por sua sabedoria e benevolência, Kang treinou rigorosamente pelo menos duas gerações de artistas marciais no Estilo do Relâmpago. Poucos foram tão famosos quanto Séphora da Chama Azul, mas nenhum foi tão peculiar quanto um halfling conhecido como “Mini Kang”.

O passado de Mini Kang é envolto em mistério, porque em sua primeira “aventura”, o pequenino bateu a cabeça, perdeu parcialmente a memória e teria morrido se Mestre Kang não o tivesse resgatado de uma antiga cidadela anã há muito abandonada. Segundo o halfling, ele se lembra de seu nome, de seu condado e que era um criador de ovelhas que havia decidido se aventurar em encontrar “grandes tesouros”. Como ele foi parar na antiga cidadela tomada por goblins e kobolds, ele não se recorda. O ponto central para ele é que, por intervenção divina, ele foi resgatado por um senhor misterioso no meio de uma surra que estava levando de goblins enquanto fugia de kobolds enraivecidos. Aquele velho senhor lutava como uma tempestade, e havia descido até ali buscando algo importante, que o halfling também não se lembrava. O que importava é que o velho lutador havia levado o pequenino para seu templo, e após algumas semanas, curado seu corpo quebrado. Grato e fascinado, o halfling implorou para ser seu discípulo, e Mestre Kang, um tanto cansado da falação e crendo que o pequenino fugiria logo na primeira semana de treino, aceitou.

Para a surpresa de todos, o pequenino se mostrou extremamente disciplinado, esforçado e até mesmo talentoso. Para a surpresa de ninguém, ele continuou falando compulsivamente mesmo enquanto treinava. Mas de tão ávido e esforçado, e de tão grudado que ele era a Mestre Kang, todos no templo começaram a chama-lo de “Mini Kang”. Ele gostou do apelido, até porque não gostava muito de seu nome original, que era Toscoble.

Depois de dois anos de treino, Mini Kang decidiu retornar à cidadela abandonada dos anões e dar uma lição nos goblins e kobolds.

- Graças ao senhor, meus punhos são como relâmpagos, mestre! – exclamou o pequenino.

- Graças ao seu esforço – dizia Mestre Kang calmamente enquanto tentava meditar – seus punhos são como faíscas, pequeninos. Em uma década, serão como relâmpagos.

Mestre Kang sabia que o pequenino era rápido, ágil e esperto. Mas sabia também que ele tinha a capacidade de concentração de uma cocatriz, o que era um péssimo traço para um monge. “Se você descer lá novamente, pode morrer, e desta vez, terá que sair sozinho”.

- Fique tranquilo, mestre, está tudo sobre controle! – respondeu o pequenino correndo para fora do templo.

Mestre Kang sabia que teria que ir atrás de seu discípulo, mas sabia também que uma lição precisava ser aprendida ali. Desta forma, decidiu que terminaria sua meditação em paz, e depois, iria atrás de seu tolo aprendiz. Andando devagar.

Depois de cerca de uma hora correndo, Mini Kang chegou à fissura que servia de entrada para a cidadela abandonada. Quando pulou lá dentro, escorregou habilmente pela parede, tocando o chão sem nenhum arranhão. No primeiro momento, ficou orgulhoso de sua habilidade. No segundo, notou que não enxergava no escuro, e que não havia trazido nenhuma tocha. No terceiro, ouviu passos vindos em sua direção. Pelo menos oito criaturas vinham de algum possível túnel à sua direita, e mais alguns pareciam vir grunhindo de sua esquerda. Em suma, ele estava bem no meio do que seria um campo de batalha entre as duas raças. “Pelo menos, não vou precisar procurar por eles”, pensou Mini Kang tentando ser otimista.

Para a sorte (e azar) de Mini Kang, alguns kobolds carregavam garrafas estranhas com algum tipo de líquido pegando fogo, e aquilo serviu para iluminar um pouco o local. Os kobolds ignoraram o halfling, rosnando ferozmente para os goblins que estavam atrás dele, e arremessaram diversas garrafas mirando seus inimigos.

Mini Kang se desviou de todas com imensa perícia e agilidade, e ouviu gritos de golbins atrás em meio a pequenas explosões. No instante seguinte, o local virou o caos absoluto. Cerca de uma dezena de kobolds lutava contra uma dezena de goblins e Mini Kang estava no meio, chutando, socando, bloqueando e se esquivando. A ideia dele era entrar furtivamente e abater o máximo de criaturas possível antes de entrar em um combate aberto, mas não foi isso que aconteceu. No entanto, ele se mostrou um artista marcial realmente capaz, se esquivando com precisão e atacando com acurácia perfeita. Quando notou que os bloqueios estavam machucando muito seus braços, deixou isso para trás e passou apenas a se esquivar. Funcionaria enquanto as pernas tivessem força e ele, espaço. Como os goblins e kobolds estavam se atacando, ele não precisava derrubar todos, apenas os que chegassem perto dele.

Depois de três minutos de luta intensa, os três últimos goblins fugiram para um lado enquanto os dois últimos kobolds fugiram para o outro. No meio do campo de batalha, havia apenas corpos caídos, pequenas chamas que não se apagaram e o bravo Mini Kang, de pé. Sangrando, arranhado, sem dois dentes, mas de pé. Quando ouviu mais movimentações vindas dos dois lados, tratou de se esconder, e quando pequenos grupos se aproximavam, ele furtivamente os emboscava e derrubava. Tudo ia bem, até que ouviu dois grandes grupos se aproximando novamente. “Acho que já deu por hoje”, pensou o pequenino se preparando para escalar de volta para a superfície. “Mestre Kang vai ficar orgulhoso!”.

Goblins e kobolds se confrontaram, e Kang, distraído olhando para trás para ver quem estava vencendo, se apoiou em uma pedra solta e caiu. Bem no meio da peleja. A última coisa que ele viu foi uma bota rasgada pisando em seu nariz, e depois, tudo ficou preto.

Yondalla sabe quanto tempo depois, ele abriu os olhos com dificuldade. Estava em sua esteira, no templo da Chama Azul. Todo enfaixado, sentindo dores fortes no corpo todo, mas vivo.

- Como foi? – ele ouviu a voz de seu mestre, que estava sentado de costas para ele, no mesmo quarto, preparando um chá.

- Poderia ter sido melhor – sorriu o pequenino sentindo alguns dentes faltando na boca – mas obrigado por me salvar novamente, mestre! Acho que preciso mesmo de um pouco mais de treino antes de voltar lá!

Kang apenas balançou a cabeça. Sua expressão era calma e serena quando se virou para seu discípulo para levar o chá. No fundo, ele estava zangado porque a lição não fora tão aprendida quanto deveria, mas feliz que chegou a tempo de evitar que seu discípulo morresse de forma tão tola.

- Quer saber o que seria incrível, mestre? – exclamou Mini Kang.

- Se você falasse menos e escutasse mais? – respondeu calmamente Mestre Kang.

- Não – riu o pequenino – Se nós pudéssemos nos curar rapidamente, com apenas uma hora de descanso. Já pensou, um curto descanso e estaríamos prontos para a aventura! Seria incrível!

- Incrivelmente estúpido – retrucou com calma Mestre Kang – Se os ferimentos sarassem tão rapidamente, o que aprenderíamos com eles? Como nos tornaríamos melhores se nossas ações e escolhas não possuem consequências reais? Que valor teria a magia para um mago que pode conjurar dezenas de feitiços poderosos sem precisar se preocupar com qualquer limite ou restrição? Que valor teria a honra de um paladino se ele pudesse agir como um maníaco irresponsável e ainda assim manter a graça divina? Que tipo de mundo nós teríamos? Que tipo de pessoas seríamos?

- Tem razão, mestre – admitiu Mini Kang – seria mesmo um mundo muito estúpido...

Observação: "Mini Kang" não é um personagem nativo de Elgalor; foi criado pelo grupo de jogo de Gronark para testar o "monge do relâmpago". Como agradecimento pela disponibilidade deles, escrevi essa pequena história.

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